Sergio Pérez falou abertamente sobre as dificuldades que encontrou durante o seu período na Red Bull, referindo que integrar um projeto construído em torno de Max Verstappen torna o segundo lugar na equipa “o pior trabalho na Fórmula 1”.
O mexicano, que competiu ao serviço da Red Bull entre 2021 e 2024, estará esta temporada de regresso ao pelotão da Fórmula 1 como piloto da Cadillac.
Numa entrevista concedida a um podcast mexicano, gravada em novembro e agora tornada pública, Pérez abordou as dificuldades que levaram a que fosse dispensado pela Red Bull no final de 2024.
Depois de um início positivo na equipa, em que desempenhou com sucesso o papel de apoio a Verstappen, Pérez foi sentindo crescentes dificuldades para extrair performance do monolugar, terminando a sua última época ao serviço da Red Bull apenas no oitavo lugar do campeonato.
“Tínhamos a melhor equipa”, disse Pérez.
“Infelizmente, tudo foi destruído. Tínhamos a equipa para dominar os próximos dez anos na Fórmula 1, acredito, e infelizmente tudo chegou ao fim. Mas eu estava na melhor equipa. Uma equipa complicada, certo? Porque ser colega de equipa do Max… só ser colega de equipa do Max já é muito difícil, mas ser colega de equipa do Max na Red Bull é, de longe, o pior trabalho que existe na Fórmula 1.”
“Todos se esqueceram, não foi? Quando cheguei à Red Bull, comecei a obter resultados e tudo mais, e todos se esqueceram de como era difícil estar naquele lugar. E eu estava muito consciente do que estava a enfrentar. Cheguei à Red Bull e eles colocaram-me contra um dos maiores pilotos da história.”
“Sabia no que me estava a meter. Este projeto foi construído para o Max. Quando me sentei pela primeira vez com o Christian, ele disse-me: ‘Olha, vamos correr com dois carros porque temos de correr com dois carros. Mas este projeto foi criado para o Max. O Max é o nosso talento.’ É como se o Carlos Slim construísse uma equipa e eu fosse o piloto dele, certo? E depois contratasses um neerlandês. É exatamente a mesma coisa.”
“Portanto, era isso que me esperava, e eu tinha plena consciência disso. Disse-lhe: ‘Não importa. Nesta equipa vou desenvolver o carro, vou apoiar o carro, vou apoiar a equipa.'”
Pérez afirmou que a Red Bull priorizou sempre a conceção de evoluções que fossem ao encontro do estilo de condução de Verstappen.
“Em 2022, quando o carro saiu por erro bastante pesado, tínhamos um monolugar muito pesado, com a distribuição de peso demasiado à frente, certo? Isso tornava-o muito, muito mais estável, e era exatamente isso que eu sempre procurei.”
“Nessa altura, lembro-me de que no simulador eu era mais rápido do que o Max, e já chegava aos fins de semana de corrida a pensar em ganhar. Tudo surgia de forma natural. Como piloto, quando não tens de pensar em como conduzir ou no que o carro vai fazer, tudo flui automaticamente. E tínhamos um carro que talvez não se enquadrasse tanto no estilo do Max, e em 2022 comecei a lutar pelo campeonato com ele… até chegarem as evoluções.”
“Quando as evoluções chegam, há uma direção muito clara para onde a equipa tem de ir, e é aí que começo a ter problemas. Deixo de saber exatamente o que o carro vai fazer em curva, começo a pensar em não bater, e depois começam os despistes, começam os acidentes. Já não tens 100% de controlo.”
“E em 2023 acontece exatamente o mesmo. A equipa constrói um carro muito mais estável para ambos os pilotos, mas assim que chegam as evoluções em 2023 e eu começo a lutar pelo campeonato com o Max… Ele ganha uma corrida, eu ganho outra, ele ganha uma, eu ganho outra, ou seja, em quatro corridas ele ganhou duas e eu ganhei duas — estávamos muito equilibrados.”
“E quando chegamos a Barcelona, passo de lutar na frente para ser cerca de um segundo por volta mais lento. Deixei de ter controlo sobre o carro. A partir daí, começa toda essa pressão. Uma pressão muito difícil de gerir porque, no fim de contas, o culpado é o piloto, certo? Porque não estás concentrado, porque fazes demasiadas ações promocionais, ou porque estás envolvido noutras coisas.”
“Toda essa pressão começou, o que foi muito difícil, porque, no fundo, quem é o culpado? O piloto.”
Pérez, que foi substituído por Liam Lawson, disse que a própria equipa estava ciente de que a substituição do segundo piloto não resolveria os problemas internos.
“Lembro-me de que, na minha despedida com o Christian, lhe disse: ‘Christian, o que é que vais fazer quando as coisas não correrem bem com o Liam?’”
“‘Bem, há o Yuki’. E quando isso não resultar, o que é que vais fazer? ‘Não, temos muitos pilotos’.”
“Disse-lhe: ‘Bom, vais acabar por usá-los a todos’. Ele respondeu: ‘Sim, eu sei’.”
“Nós já sabíamos disso, mas nesse ano havia também imensa pressão. O Christian teve alguns problemas, por isso eu também acabei por ser, de certa forma, uma distração.”
“Ninguém falava de outra coisa senão de mim, do meu desempenho, de quão mal eu estava a correr.”
“Na Red Bull, tudo era um problema. Se eu era demasiado rápido, era um problema, porque, naturalmente, isso criava um ambiente muito tenso na Red Bull.”
“Se fosse mais rápido do que o Max, era um problema. Se fosse mais lento do que o Max, também era um problema.”
“Portanto, tudo era um problema. Mas também aprendi muito. Aprendi que, nas circunstâncias em que me encontrava, em vez de me queixar, tinha de fazer o melhor que podia e tirar o máximo proveito da situação.”






